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No início do século XIX (1801-1900),
a dinastia Manchu, que controlava o Império Chinês
desde o século XVII, estava atenta aos interesses dos ocidentais
na riqueza da China, razão pela qual fechou suas portas ao
comércio exterior. A única exceção a
essa regra foi a manutenção das relações
comerciais com o porto de Cantão, o que, no entanto, não
foi suficiente para as chamadas potências imperialistas do
século XIX (Inglaterra, Estados Unidos, França, Rússia
e Japão), que desejavam ter mais portos livres, mais consumidores
chineses e, conseqüentemente, mais lucros.
Para obter esse espaço, os ingleses não demoraram
a contrabandear grandes quantidades de ópio para o território
chinês, provocando a reação do Império,
que tentava impedir a propagação desse entorpecente.
Em 1839, o governo chinês apreendeu um carregamento inglês
de ópio, o que fez do combate entre ingleses e chineses apenas
uma questão de tempo. Foram os ingleses que declararam guerra,
dando início à chamada Guerra do Ópio, na qual
a China foi derrotada em 1842. Com a derrota, os chineses foram
obrigados a assinar o Tratado de Nanquim, que estabelecia a abertura
dos portos aos ingleses e a entrega de Hong Kong, dando início à dominação
ocidental do gigantesco Império.
As investidas de países ocidentais ao Oriente não
pararam por aí. Japão e Rússia também
foram alvo de ataques.
Em 1860, franceses e ingleses invadiram a capital
chinesa, Pequim, com o apoio de norte-americanos e russos, e obrigaram
os orgulhosos
chineses a aumentar as vantagens concedidas a países estrangeiros:
aceitar a instalação de embaixadas e a ação
de missionários cristãos.
Em 1900, a China tentou resistir por meio da ação
de um grupo de nacionalistas radicais, que se esforçou para
reduzir a dominação estrangeira sobre o país.
Chamados de boxers pelos ingleses, os integrantes desse grupo conseguiram
provocar certo medo nos estrangeiros, mas isso não evitou
a exploração sofrida pelo Império, que se prolongou
até a ascensão dos comunistas em 1949.
1949: A
revolução socialista de Mao Tsé-tung
O povo chinês, que havia sido saqueado, dividido e humilhado
pelas chamadas potências imperialistas durante o século
XIX e XX, lutou contra a sangrenta invasão japonesa, que
chegou a ocupar mais da metade do território chinês
nos anos 30 e 40 do século XX. Por isso, os comunistas liderados
por Mao Tsé-tung acabaram por receber grande apoio da população,
que via o esforço dos militantes comunistas como uma luta
antiimperialista que devolveria à China o seu lugar de grandiosidade,
ocupado no passado. No imaginário da população
chinesa, era como se uma nova dinastia imperial, jovem e forte,
chegasse ao poder.
Foto: National Arquives (196235)

Mao Tsé-tung discursando para correligionários em
12 de junho de 1944.
Após contribuírem com a expulsão
dos japoneses, os “comunistas” ainda tiveram que lutar contra
os “nacionalistas”
chineses, liderados por Chiang Kai-shek, que comandava o Kuomintang
— Partido Nacionalista da China. Com a derrota, os nacionalistas
acabaram por fugir para a Ilha de Formosa, onde, em 8 de dezembro
de 1949, fundaram a cidade de Taiwan.
O que ocorreu no período em que a China esteve nas mãos
dos comunistas? O que os comunistas fizeram, em 1949, para reconstruir
um país de aproximadamente 540 milhões de habitantes,
explorado pelos ocidentais e dominado pelos vizinhos japoneses durantes
anos?
Uma das primeiras tentativas de reconstrução foi
a elevação da produção agrícola.
Nesse sentido, pode-se considerar que houve sucesso, pois, nos primeiros
sete anos da Revolução Chinesa (1949-1956), a produção
agrícola foi ampliada em 70%.
Mas o planejamento — uma característica dos países
que passaram por regimes socialistas — não parou na agricultura,
seguiu para as áreas da educação e da indústria.
A partir de 1956, com o fim da relação amistosa com
os russos, cessou a ajuda material (equipamentos e tecnologia) e
financeira que vinha de Moscou. Com isso, Mao Tsé-tung, o
Grande Timoneiro, teve que comandar a economia chinesa com seus
próprios recursos.
Segundo o historiador britânico Eric Hobsbawn, o fim da ajuda
soviética “causou o calvário do povo chinês,
assinalado por três estações principais da cruz:
a ultra-rápida coletivização da agricultura
camponesa em 1955-57; o ‘Grande Salto Avante’ da indústria
em 1958, seguido pela grande fome de 1959-1961, provavelmente a
maior do século XX; e os dez anos da Revolução
Cultural, que acabaram com a morte de Mao, em 1976.” (HOBSBAWN,
Eric. A era dos extremos. São Paulo: Companhia das Letras,
1995, p. 452.)
Nessa fase, que durou aproximadamente 20 anos, entre
1956-1976, o governo comunista de Mao Tsé-tung elaborou e colocou em
prática três grandes planos de desenvolvimento socioeconômico:
a coletivização da agricultura (1955-1957), o Grande
Salto Avante (1958-1960) e a Revolução Cultural (1966-1969).
O primeiro grande projeto, a coletivização da sociedade
chinesa, gerou em poucos meses o espantoso número de 24 mil
comunas populares, nas quais a vida (inclusive a familiar, como
destaca Hobsbawn) passou por um processo radical de socialização
coletiva — as escolas e refeitórios foram coletivizados,
o que possibilitava que as mulheres fossem trabalhar nos campos.
Passaram a ser oferecidos seis serviços básicos aos
cidadãos chineses, para substituição da renda
financeira (salários e renda oriunda de venda): alimentação,
assistência médica, educação, funeral,
corte de cabelo e cinema.
O passo seguinte, a implantação do projeto Grande
Salto Avante (ou Grande Salto para Frente) tinha por objetivo industrializar
maciçamente a economia chinesa e gerar finalmente a igualdade
socialista, tão almejada.
O fracasso dessas duas iniciativas de Mao foi tão retumbante
que em 1959 e 1960 a China conheceu uma das maiores crises de alimentos
da História mundial, gerando a morte de milhões de
camponeses, bem como a desorganização da sociedade
milenar chinesa.
A conseqüência desse fracasso foi o isolamento de Mao
e seu afastamento das políticas internas do país.
Porém, logo o Grande Timoneiro buscou voltar a comandar o
país e começou a denunciar a existência de “idéias
burguesas” e “mentalidade capitalista”, tanto no partido quanto
na sociedade chinesa. Para combatê-las, Mao propôs,
em 1966, uma Revolução Cultural, ou seja, o fim dessa
mentalidade (burguesa) na China.
Na prática, a Revolução Cultural Chinesa assistiu à formação
das Guardas Vermelhas — milícias formadas por jovens doutrinados
pelo chamado Livro Vermelho — comandadas pela mulher de Mao, Jiang
Qing. Formadas por quase 20 milhões de jovens estudantes,
as Guardas Vermelhas perseguiram e mataram milhares de professores,
trabalhadores e principalmente os líderes do Partido Comunista
que se opuseram a Mao. Os números oficiais indicam a morte
de 34 mil pessoas, mas analistas do caso chinês apontam que
milhões de pessoas foram mortas na Revolução
Cultural.
Além de perseguir pessoas, essa revolução
queimou livros considerados perigosos e proibiu a execução
de peças teatrais que não condiziam com a luta proletária
do comunismo de Mao, tal como Romeu e Julieta, de Shakespeare.
Anos 70: a muralha chinesa começa a se abrir
Com o fracasso do Grande Salto Avante e os milhares
de mortos na Grande Revolução Cultural do Proletariado, a China
passou por momentos de instabilidade política e econômica
gigantescos entre 1966-1976. Apesar da figura de Mao ter ficado
seriamente abalada como grande líder do país e as
reformas políticas parecerem ter sido inevitáveis,
o timoneiro manteve-se no poder até sua morte, em 1976.
Na fase final de seu governo, a disputa internacional
entre China e URSS fez com que os norte-americanos se aproximassem
dos chineses.
Esse contato com os americanos gerou importantes mudanças
na política externa chinesa, tal como a inserção
do país como membro da ONU, em outubro de 1971, e a expulsão
de Taiwan, ilha asiática de economia capitalista para onde
se refugiaram os nacionalistas do Kuomintang.
Apesar do fracasso econômico dos planos de Mao e das perseguições
políticas violentas do regime comunista, os índices
chineses ao final da Era Maoísta não podem ser considerados
ruins se os compararmos com os de outros países. Seguem alguns
números apresentados por Hobsbawn: “No fim do período
de Mao, o consumo médio de alimento chinês (em calorias)
estava pouco acima da média de todos os países, acima
do de catorze países nas Américas, 38 na Ásia,
com exceção da Malásia e Cingapura. Seis vezes
mais crianças iam à escola primária do que
quando Mao chegou ao poder... isto é, uma taxa de matrícula
de 96%, comparada com menos de 50% em 1952... (Hobsbawn, 1995, p.
455.)
Foto: National Archives (NLNP-WHPO-MPF-C8549(25A)

Casal Nixon visitando a Grande Muralha da China, em 24 de fevereiro
de 1972.
Com a morte de Mao em 1976, ascende
ao poder Deng Xiaoping, um comunista de centro favorável à liberalização
progressiva do regime chinês. Esse processo acabou por afastar
do comando do partido comunista chinês os representantes considerados
“maoístas”, ou seja, os defensores das políticas aplicadas
por Mao.
A partir da chegada de Deng Xiaoping,
a China passou a ser levada lentamente a um regime misto, que
procurava liberar economicamente
o país, mas, por outro lado, mantinha a estrutura de partido
político único, ou seja, com restrições à participação
democrática. Ao longo dos anos 80 e 90 do século XX,
foram tomadas algumas medidas, como a descoletivização
das terras, o encerramento das comunas populares, o incentivo à autonomia
das províncias e também a valorização
de associação entre empresas chinesas e estrangeiras.
Essas medidas acabaram por reaquecer a economia chinesa.
Ao abrir suas portas à economia capitalista, a China passou
a realizar atividades que visavam integrá-la a toda a rede
de comércio mundial. Em 1990, foram criadas as ZEEs — Zonas
Econômicas Especiais —, nas quais empresas multinacionais
podiam instalar seus parques industriais. Em 1997, a região
de Hong Kong, que estava sob posse britânica, voltou para
os chineses e estimulou ainda mais o capitalismo chinês. Em
2001, a China foi aceita na Organização Mundial do
Comércio (OMC), a instituição que regula as
atividades comerciais no mundo. Esse conjunto de medidas fez com
que o PIB — Produto Interno Bruto — chinês, por vários
anos seguidos, apresentasse números que podem ser considerados
fantásticos em comparação com os de outros
países em desenvolvimento, como o Brasil. Por
Ederson Santos Lima e César Munhoz
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